Em Pauta

10 anos da revolução solar: crédito do BNB transforma calor do Nordeste em riqueza

Financiamentos ajudaram a consolidar uma década de expansão da energia solar na região

O sol no Nordeste sempre esteve ali. Firme. Incansável. Dourando a palha seca do sertão, rachando o chão das roças, queimando o asfalto das rodovias e cidades. Durante muito tempo, ele foi sinônimo de resistência. De calor. De aperto. Trazendo tardes que parecem não terminar nunca.

Mas alguma coisa mudou no horizonte nordestino. O mesmo sol que antes fazia crescer a conta de energia agora ajuda a pagá-la. O calor virou economia. A luz virou renda. E o céu aberto da região começou a produzir mais do que paisagem: passou a produzir futuro.

Na casa da enfermeira Nara Leite, em Demerval Lobão, cidade distante 30 km ao sul de Teresina, capital do Piauí, a mudança chegou pelo telhado. Há cerca de um ano, os painéis solares foram instalados na residência da família. Antes disso, a conta de energia passava fácil dos R$ 1 mil nos meses mais quentes. Hoje, raramente ultrapassa os R$ 400.

“Foi um alívio muito grande. O dinheiro que antes ia todo para a energia agora ajuda no supermercado, nas despesas da casa, nas contas do dia a dia dos filhos”, destacou, ressaltando que a melhoria é ainda mais sentida na época mais quente do ano. “No B-R-O-Bró, deixamos os aparelhos de ar-condicionado ligados direto. Não me arrependo nem um pouco”, completa.

A história de Nara deixou de ser exceção. Ela se espalhou pelo estado inteiro. Os painéis azuis já fazem parte da paisagem do Piauí. Estão nos telhados das casas simples, nos supermercados, nas farmácias, nas escolas, nos hospitais e nos prédios públicos. E também no campo, no meio do sertão, dividindo espaço com mandacarus, cisternas e plantações.

O Nordeste aprendeu, enfim, a colher o próprio sol. E o Piauí virou um dos retratos mais simbólicos dessa transformação silenciosa. Desde 2016, o estado saiu praticamente do zero para alcançar mais de 88,5 mil unidades geradoras de energia solar distribuída. Atualmente, existe, em média, um sistema solar para cada 15 unidades consumidoras da rede elétrica convencional.

E esse ano, pela primeira vez, todos os 224 municípios piauienses passaram a contar com sistemas fotovoltaicos instalados. Uma revolução espalhada de Norte a Sul. Não apenas na paisagem, mas na economia das famílias, no mercado de trabalho e na forma como o estado produz energia.

O Brasil inteiro vive essa mudança. Cerca de 97% da geração distribuída nacional já vem da energia solar, aquela produzida diretamente por consumidores e compartilhada na rede elétrica. Em determinados momentos do dia, a fonte fotovoltaica já responde por até 40% do abastecimento do país. 

Do telhado urbano ao campo distante, a transformação é geral. E ela vem acompanhada de uma cadeia econômica crescente. Instaladores, engenheiros, eletricistas, vendedores, fabricantes, técnicos e empresas especializadas passaram a ocupar um mercado que cresce ano após ano.

Segundo a ABSOLAR, associação que reúne empresas do setor fotovoltaico no país, somente em 2025 o segmento movimentou mais de R$ 382 milhões em investimentos no Piauí. Para Bárbara Rubim, presidente eleita do Conselho de Administração da entidade, o avanço da energia solar se tornou estratégico para o desenvolvimento do país.

“O crescimento da energia solar, tanto no Brasil quanto no Piauí, é fundamental para o desenvolvimento social, econômico e ambiental da nação. A tecnologia fotovoltaica ajuda a diversificar o suprimento de energia elétrica, reduz a pressão sobre os recursos hídricos, fortalece a sustentabilidade, alivia o orçamento das famílias e amplia a competitividade dos setores produtivos brasileiros”, pontuou. 

Ela destaca, também, que o futuro do setor passa pela combinação entre geração solar e armazenamento em baterias, ampliando segurança energética e estabilidade do sistema elétrico nacional.

Mas é no Nordeste, onde o sol nunca faltou, que essa expansão ganhou velocidade, e crédito.  Parte dessa história passa pelo Banco do Nordeste, pioneiro na criação de linhas específicas de financiamento para sistemas solares na região. Em 2019, nasceu o FNE Sol, programa voltado para micro e minigeração distribuída de energia elétrica.

Os números impressionam. Somente no Piauí, os financiamentos já somam R$ 361,6 milhões distribuídos em 9,4 mil operações. Na prática, isso significa que aproximadamente um em cada dez sistemas solares instalados no estado teve apoio financeiro do banco. Só para pessoas físicas, foram R$ 126,6 milhões financiados em quase 3,9 mil operações. 

Para Francisco Lopes, superintendente do Banco do Nordeste no estado, o impacto vai muito além da conta de luz. “Estamos falando de sustentabilidade, de redução de impactos ambientais, de geração de emprego e de inclusão produtiva. O FNE Sol possui uma das menores taxas do mercado e uma inadimplência praticamente zero. Isso mostra que as pessoas entendem a energia solar como investimento”, afirma.

Segundo ele, o alcance social da tecnologia talvez seja o aspecto mais transformador. “Hoje, muitos produtores rurais conseguem manter irrigação, hortas, sistemas de bombeamento e pequenas produções funcionando com energia solar, inclusive em áreas onde a rede elétrica ainda enfrenta dificuldades de acesso”, detalhou.

No mundo dos negócios, a lógica é a mesma. O dinheiro que antes desaparecia nas contas de energia passou a alimentar novos investimentos. Foi exatamente isso que aconteceu com a TeleGO Net, empresa de telecomunicações nascida em José de Freitas há 18 anos e que hoje mantém filiais em Barras, Lagoa Alegre, Cabeceiras e Esperantina. Na unidade de Barras, a empresa decidiu trocar parte da despesa fixa por uma aposta no próprio sol.

Primeiro vieram 34 painéis de 570 watts, capazes de gerar 19,38 kWp. Depois, uma ampliação elevou a capacidade para 27,78 kWp. O resultado foi mais do que economia. A energia produzida passou a reduzir praticamente ao mínimo a conta da filial e ainda gerar créditos para outras unidades da empresa.

“Hoje, um dos maiores desafios para qualquer empresa é o custo operacional. A geração própria de energia nos permitiu diminuir esse peso e direcionar recursos para outros investimentos. Nosso objetivo é levar esse modelo para todas as filiais”, explica Johny da Silva Viana, diretor administrativo e financeiro da empresa.

Mas, para ele, a expansão só se tornou possível porque o acesso ao crédito veio junto com o sol. “Somente com linhas de crédito acessíveis e juros reduzidos conseguimos avançar. E isso foi possível através do Banco do Nordeste, que possui recursos voltados justamente para esse tipo de investimento das empresas”, destaca.

Histórias como essa ajudam a explicar por que, ao longo da última década, a energia solar deixou de ser um privilégio de poucos para se tornar uma ferramenta de competitividade para pequenos negócios, propriedades rurais e famílias inteiras.

Na zona rural de Paulistana, município distante quase 500 km ao sul de Teresina, por exemplo, o agricultor Raimundo Alves passou anos dependendo de combustível caro para movimentar bombas d’água na pequena propriedade da família. O diesel limitava a produção e apertava as contas. Por lá, ele instalou uma miniusina fotovoltaica.

Hoje, a energia move a irrigação, abastece a cisterna e mantém viva a horta que garante renda para a família. “O que eu gastava com diesel agora fica para investir na plantação. A energia do sol salvou muita coisa aqui”, resume Raimundo. E talvez seja justamente aí que mora a grande revolução.

Ela não aparece apenas nos megawatts produzidos nem nos bilhões investidos. Aparece nos detalhes. Na dona de casa que liga o ar-condicionado sem medo da conta no fim do mês. No agricultor que irriga a plantação sem depender do diesel. Na escola pública que economiza energia. No posto de saúde do interior. E também na empresa que, ao invés de gastar mais para manter as portas abertas, usa a força do sol para crescer.

O sol continua o mesmo. Forte. Quente. Implacável. Mas, dez anos depois dos primeiros sistemas começarem a se espalhar pelo Piauí, impulsionados, em grande parte, pelo crédito que chegou antes mesmo da explosão do setor, ele deixou de ser apenas resistência. Virou esperança pendurada nos telhados. E um dos maiores motores silenciosos da economia nordestina.

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