Quatro em cada dez estudantes piauienses sofreram bullying na escola
Em 2019, eram 39,6%. Agora, são 2,2 pontos percentuais a mais
Não tem sirene, não deixa marca visível na maioria das vezes, não entra nas estatísticas policiais. Mas está lá, todos os dias, dentro das escolas e, cada vez mais, dentro dos celulares. No Piauí, 41,8% dos estudantes entre 13 e 17 anos dizem já ter sido humilhados por colegas. Quase metade.
O dado, da mais recente Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgada essa semana pelo IBGE, revela mais do que um número alto. Mostra um padrão que se repete, e cresce. Em 2019, eram 39,6%. Agora, são 2,2 pontos percentuais a mais. Pode parecer pouco. Não é. Em termos reais, são milhares de adolescentes atravessando a mesma experiência de constrangimento, exclusão e dor.
A violência começa, quase sempre, por aquilo que é visível. O rosto, o cabelo, o corpo. Juntos, esses fatores somam mais da metade das motivações relatadas. Depois vêm a cor da pele, o jeito de falar, a roupa. Diferenças que deveriam ser naturais viram motivo de ataque. Em um quarto dos casos, nem isso: a vítima sequer sabe por que foi escolhida.
É aí que o problema se torna ainda mais complexo. Porque o bullying não precisa de justificativa. Ele se sustenta na lógica da repetição, da exposição, do isolamento. A série Adolescência, da Netflix, retrata bem esse cenário. Mostra que a violência entre jovens não termina quando o sinal toca. Ela continua online, sem intervalo, sem proteção. No Piauí, 13,8% dos estudantes dizem já ter sido ameaçados ou humilhados nas redes sociais. Entre alunos de escolas públicas, o índice sobe para 14,5%.
A diferença entre o presencial e o virtual é que, na internet, a agressão ganha plateia, e permanência. O ataque pode ser visto, compartilhado, repetido. A vítima não tem para onde ir. Mas há outro dado que chama atenção: 12,6% dos estudantes admitem já ter praticado bullying. Entre os meninos, esse percentual é maior, chega a 14,7%. Isso mostra que o problema não está isolado em um grupo. Ele circula.
Quando se olha de perto, o que esses números revelam é um ambiente onde a convivência virou disputa. Onde a diferença vira fraqueza. Onde o silêncio das vítimas ajuda a manter tudo como está. Não é um problema distante. Está nas salas de aula, nos grupos de mensagem, nos comentários que parecem inofensivos, mas não são. E, como toda violência que se repete, essa também deixa marcas. Mesmo quando ninguém vê.