Agiotagem com colombianos no Piauí funciona como 'franquia', apontam delegados
Durante a segunda fase da Operação Macondo, foram bloqueados até R$ 1 milhão em bens dos suspeitos
O avanço das investigações da Operação Macondo revelou como funciona, na prática, o esquema de agiotagem comandado por estrangeiros no Piauí, especialmente colombianos, recrutados para atuar em diferentes frentes do crime. Segundo delegados que conduzem o inquérito, o grupo opera com uma estrutura semelhante à de uma franquia, com divisão clara de funções e fluxo constante de dinheiro entre estados e até fora do país.
Durante coletiva de imprensa, o delegado Felipi Bonavides explicou que um dos investigados relatou o próprio caminho até ingressar no esquema criminoso. Ele contou que saiu da Colômbia, passou por São Paulo trabalhando no comércio de tecidos e, durante a pandemia, recebeu a proposta para atuar com empréstimos ilegais. O capital inicial, segundo o depoimento, vinha da venda de bens na Colômbia, sendo transferido para o Brasil e redistribuído entre os integrantes.
“Então, que nós interrogamos, um deles falou de maneira bem específica, ele veio da Colômbia, veio para São Paulo, trabalhou com tecidos, depois, com a pandemia, recebeu essa proposta para trabalhar com dinheiro já em São Paulo, pessoas da Colômbia vendem bens para conseguir o dinheiro, que é o capital inicial, e aí transferem para cá, e aí ele passou um tempo em São Paulo, veio para cá, voltou para São Paulo, depois voltou para cá em janeiro e ele estava numa casa que era de dois alvos nossos, que estão foragidos, que estamos indo atrás, então ele não foi preso, mas ele prestou essas informações, ou seja, funciona como uma franquia mesmo”.
Já o delegado Matheus Zanatta detalhou a engrenagem interna do grupo, que atua de forma organizada para garantir controle das vítimas e da arrecadação.
“Nessa estrutura há a divisão de tarefas, tem a pessoa que dá o dinheiro, a outra que faz o empréstimo, a outra pessoa que faz a cobrança, o outro que vai controlando quem já pagou, quem não pagou, e o dinheiro arrecadado é enviado para um líder que está acima deles”.
De acordo com as investigações, esse modelo permite que o esquema se espalhe por vários municípios e dificulta a identificação dos mandantes, que raramente mantêm contato direto com os cobradores ou com as vítimas.
O delegado Roni Silveira destacou que a atuação de colombianos nesse tipo de crime já se tornou recorrente em todo o país, o que reforça a suspeita de uma coordenação externa.
“Esse comportamento criminoso desses estrangeiros de nacionalidade colombiana se tornou algo endêmico. Eu acredito que em 90% do país, hoje, a gente já tem a atuação desses indivíduos. Então, o que reforça a nossa crença de que eles vêm de lá, se não houver um líder comum em país estrangeiro, há poucos líderes comuns, então a gente acredita em um grupo pequeno que tem o domínio fora do país dessa atividade criminosa”.
A segunda fase da Operação Macondo cumpriu dezenas de mandados de prisão e busca em cidades do Piauí, Maranhão e Ceará, além de bloquear até R$ 1 milhão em contas ligadas aos investigados. As apurações seguem para localizar foragidos e aprofundar a identificação dos líderes responsáveis por financiar e coordenar o esquema de crédito ilegal.