Entenda como a rolagem infinita pode ser prejudicial para a formação das crianças
Regras do ECA Digital restringem práticas e ampliam proteção de jovens na internet
RedaçãoO decreto que regulamenta o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, publicado nesta quarta-feira (18), estabelece restrições a práticas consideradas manipulativas em ambientes virtuais voltados ao público infantojuvenil. A medida atinge diretamente recursos comuns em plataformas digitais, como a rolagem infinita, um mecanismo que carrega conteúdos automaticamente, sem ação do usuário, amplamente utilizado em aplicativos como Instagram, Facebook e TikTok, populares entre jovens no Brasil.
Para o psicólogo e psicanalista formado pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, Leonardo Goldberg, esse tipo de ferramenta impacta diretamente a percepção de tempo dos usuários. “Mesmo que o sujeito não encontre nenhuma novidade, a tela vai rolar de maneira infinita, como se houvesse sempre algo a mais para aparecer. A noção de tempo nas redes sociais difere da do cotidiano, justamente por não existir uma pausa”, explica.
Outro recurso na mira da regulamentação é a reprodução automática de vídeos (autoplay), também comum em plataformas digitais e que deverá ser restringido para crianças e adolescentes. A definição detalhada das regras ficará a cargo da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), responsável por estabelecer critérios técnicos e de segurança para coibir esse tipo de prática.
Um exemplo desse mecanismo ocorre em serviços de streaming, como a Netflix, quando um episódio termina e o próximo é iniciado automaticamente, sem necessidade de interação do usuário. Esse tipo de recurso estimula o consumo contínuo de conteúdo e reduz as pausas durante a navegação. Goldberg também destaca que o uso excessivo dessas ferramentas pode estar associado a comportamentos compulsivos. Segundo ele, o tratamento, no campo da psicanálise, passa pela escuta do sujeito. “Muitas vezes, essa repetição não oferece conteúdo de qualidade, mas ainda assim gera uma forma de satisfação”, afirma.
O especialista acrescenta que, em muitos casos, o usuário busca repetir a experiência inicial de satisfação obtida nos primeiros momentos de uso, mesmo que, posteriormente, o conteúdo se torne menos relevante. Para ele, compreender essa dinâmica é fundamental para enfrentar possíveis quadros de dependência digital. A ANPD deve abrir consultas públicas nos próximos meses para consolidar regras mais detalhadas voltadas à proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital.