Tradição e fé marcam ensaio da Paixão de Cristo no Monte Castelo em Teresina

Grupo mantém há mais de 40 anos encenação que reúne milhares na zona Sul de Teresina

Há mais de quatro décadas, um grupo de teatro do bairro Monte Castelo, na zona Sul de Teresina, mantém viva uma das mais tradicionais encenações da Semana Santa na capital: a Paixão de Cristo. Na noite de ensaio acompanhada pela equipe do Conecta Piauí , atores e direção ajustavam detalhes na praça Engenheiro Cícero Ferraz, palco oficial da apresentação que, todos os anos, reúne um público que ultrapassa 30 mil pessoas.

A preparação começa meses antes da Semana Santa. Figurinos, cenários, texto, marcações e elenco são cuidadosamente organizados para garantir uma apresentação fiel à narrativa bíblica. À frente da coordenação está Luís Tito, que integra o grupo há 38 anos.

“Olha, é um trabalho grandioso. Eu já estou há 38 anos no grupo, como cenógrafo, já passou com três administrações como coordenador e é um trabalho que a gente faz com muito carinho, muita dedicação, é com sol, com chuva, porque a gente tem um respeito muito grande pela população que vem para cá, que passa de 30 mil pessoas. Então, a gente tem que botar a alma e o coração pra fazermos esse trabalho. É muita gente envolvida, é muito, são atores, atrizes, direção, é muita gente, é muita gente”, disse Luís Tito.

A direção de cena é conduzida por Aparecida Jucá, que acompanha de perto cada etapa do processo, desde a pesquisa do texto até o laboratório dos atores.

“Olha, na realidade, a preparação já vem desde janeiro e tem todo um preparo até antes, na questão da pesquisa do texto, ambientação dos cenários, a preparação e pesquisa do laboratório com os próprios atores. Então, o que a gente procura fazer realmente é fidelizar, porque nós não estamos contando uma história fictícia, mas sim uma história que realmente aconteceu. Então, nós estamos realmente preocupados com toda essa preparação dos atores, do elenco, dos cenários, e, enfim”, contou.

Segundo ela, o maior desafio é a formação do elenco, já que a encenação envolve dezenas de personagens.

“O maior desafio é fechar o elenco. São muitos personagens, então é um universo de personagens. Então, a questão de ir montando o elenco no decorrer do processo, tem que ter algumas substituições. Então, o maior desafio que nós temos ultimamente é realmente montar esse elenco, porque é um elenco muito grande. São muitos personagens que se fala mais de 60 personagens que se fala, fora a figuração e os soldados”, destacou.

Entre os papéis centrais está Maria, interpretada por Cláudia Souza. Ela integra o grupo desde o ano 2000 e, em 2026, viverá o papel pela quarta vez.

“Eu comecei no ano de 2000, a convite de uma amiga, comecei como figurante e ao longo dos anos, com as oficinas de teatro, eu fui me soltando, fui perdendo mais a timidez, até que fui começando com papéis menores e fui melhorando cada vez mais. E hoje, em 2026, é a quarta vez que eu vou interpretar a Maria, que pra mim sempre é um presente, um personagem muito lindo e que eu aprendo cada vez mais quando eu vou fazer esse personagem. Não é sempre a mesma coisa, apesar de ser a quarta vez. Sempre a gente acrescenta algum elemento, a gente descobre algum elemento que fortalece a nossa interpretação”, afirmou.

Ela também descreve a emoção de chegar ao dia da apresentação e ver a praça lotada.

“O coração é só felicidade, só satisfação e gratidão. A gente passa, em média, três meses se preparando, conhecendo o personagem, dando o melhor de si. E quando a gente vem aqui para a praça, que vê todo aquele público, as pessoas saem na chuva, a gente vê aquele mar de sombrinhas, é muita gratidão, né? O coração fica cheio de gratidão. E a gente sempre tenta melhorar em razão também desse público, né? Que é fiel às nossas apresentações há 41 anos. Então a gente leva isso como um incentivo para melhorar cada ano, para se doar cada vez mais para tudo sair cada vez mais perfeito”, completou.

No papel de Jesus, o ator Jésus Carvalho também passa por uma preparação intensa, que envolve não apenas ensaios, mas dedicação física e espiritual.

“São três meses, né, de preparação, tanto espiritual como academia, o físico também tem que estar preparado, né? É muito gratificante. Eu acredito assim que é incrível poder interpretar Cristo, poder representar ele nesse momento incrível, assim, dos 41 anos da Paixão de Cristo do Monte Castelo. Fico muito grato pelo convite ao grupo, né, por estar representando o Nosso Senhor. E eu fico muito feliz com isso também”, disse.

Ele relata ainda a emoção ao perceber a reação do público durante as apresentações.

“Tipo, tem muita luz fora, mas assim você vê uma plateia gigantesca, com aquele olhar cheio d'água, é muito bonito e é muito gratificante mesmo. E a sensação de chegar no final, subindo, todo mundo aplaudindo, qual a sensação? É assim, inexplicável, inexplicável. É muito gratificante mesmo. São três dias de pura emoção. Só vendo pra acreditar pra ver como que é cada dia”, finalizou.

A encenação da Paixão de Cristo do Monte Castelo é realizada de forma voluntária, movida pelo compromisso com a fé, a cultura e a arte. A cada ano, o grupo reafirma o propósito de manter viva uma tradição que atravessa gerações e transforma a praça Engenheiro Cícero Ferraz em um grande palco de emoção e reflexão durante a Semana Santa.

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