Em Pauta

Avanço do saneamento reduz em 36% mortes por doenças ligadas à água em Teresina

A política pública que raramente aparece nas fotos, mas altera destinos

Há histórias que começam no alto de prédios. Outras, em gabinetes com ar-condicionado e projetos grandiosos. Mas algumas das transformações mais profundas de uma cidade nascem em silêncio, longe dos olhos, cavando a terra e reorganizando o que corre por baixo dela.

Em Teresina, a revolução mais decisiva dos últimos anos não levantou viadutos, nem ergueu monumentos. Ela abriu valas, assentou quilômetros de tubulações e redesenhou o subsolo da capital. Uma engenharia discreta, quase invisível, que começa a produzir efeitos visíveis onde realmente importa: na saúde, na dignidade e no futuro das pessoas.

Porque saneamento, antes de ser estatística, é história de vida. No Residencial Lindalma Soares, zona Norte da capital, por exemplo, houve um tempo em que a água era uma espera. E a espera era longa. Sete dias. Às vezes oito. Tempo suficiente para transformar gestos simples em desafios diários. Tomar banho virava um privilégio raro. Escovar os dentes na pia, um pequeno luxo.

A rotina das famílias era organizada em torno de baldes, garrafões e caixas improvisadas, onde cada litro precisava ser guardado como se fosse ouro. Era também um tempo de invenção coletiva. Moradores cavavam o chão em mutirões improvisados, tentando arrancar do subsolo algum fio de sobrevivência. O que saía, quando saía, era uma água turva, incerta, mas necessária.

Nesse cenário vive Stteffany Caroline, a Carol. Mãe solo de quatro filhos, dois deles autistas, ela chegou ao bairro em 2019, quando o residencial ainda era um território de promessas e carências. “Não tinha ponto de água. Quando a gente conseguia, armazenava em baldes”, lembra.

A rotina da família era atravessada pela escassez. Nos dias sem abastecimento, os filhos seguiam para a escola sem banho. Como estudavam em tempo integral, tomavam banho lá. Era ali, no ambiente escolar, que encontravam algo que deveria existir dentro de casa. Três dos quatro filhos de Carol só conheceram um chuveiro funcionando regularmente no ano passado.

A renda da família é um salário mínimo do Benefício de Prestação Continuada (BPC) recebido por um dos filhos, de sete anos. Com esse dinheiro, as escolhas não são teóricas, são urgentes. “Ou você constrói um banheiro, ou você compra comida”, pontua. E entre essas duas necessidades, a matemática da pobreza não deixa dúvidas. “Com água, a gente tem dignidade”, resume Carol.

E não é uma metáfora. Banheiro não é detalhe doméstico. É uma fronteira civilizatória. Em Teresina, ainda existem mais de mil domicílios sem esse cômodo essencial, segundo dados do último Censo do IBGE. Um espaço mínimo que separa saúde de doença, proteção de exposição, infância de risco. Onde falta saneamento, sobra vulnerabilidade. A medicina conhece bem essa equação.

O infectologista Luciano Mourão explica com a objetividade que os dados exigem, saneamento básico é uma das intervenções mais eficazes de saúde pública já criadas. Ele previne doenças transmitidas pela água contaminada, reduz a proliferação de vetores, diminui surtos de dengue, leptospirose e doenças diarreicas agudas. Mais do que isso, reduz mortalidade infantil e desafoga hospitais. “Cidades sem saneamento adequado registram mais internações e mais mortes de crianças”, afirma.

É uma conta dura, mas simples. Esgoto a céu aberto costuma significar hospital cheio. Nos últimos anos, porém, essa equação começou a mudar em Teresina. Desde 2017, mais de R$ 1,3 bilhão foram investidos em infraestrutura de saneamento na capital. O resultado é uma rede subterrânea que cresce silenciosamente. São exatos 363 quilômetros de esgotamento sanitário implantados, uma distância equivalente à viagem entre Teresina e Cajueiro da Praia.

O impacto aparece nos números. A cobertura de esgoto da cidade saltou de 19% para 59%. Mais de 50 bairros já contam com rede completa, enquanto outros 70 possuem cobertura parcial. No abastecimento de água, são 3.118 quilômetros de redes, 137 poços ativos, estações elevatórias, adutoras e reservatórios que sustentam um sistema cada vez mais robusto. Os efeitos começam a aparecer nos indicadores.

Dados do painel do Instituto Trata Brasil, em apenas um ano as mortes por doenças de veiculação hídrica caíram 36% em Teresina, passando de 22 para 14. No mesmo período, as internações despencaram de 804 para 333 casos.

Os dados da Fundação Municipal de Saúde (FMS) confirmam a tendência. Em 2025, houve uma redução de 8,1% nos registros de doenças diarreicas agudas, saindo de 75.351 casos, em 2024, para 69.257. No Hospital da Criança, a queda foi ainda mais expressiva, de 4.003 atendimentos para 3.121, redução de 22%.

Para a presidente da Fundação Municipal de Saúde (FMS) de Teresina, Leopoldina Cipriano, cada número que cai tem um significado muito concreto. “Cada redução nos números representa famílias que deixam de enfrentar o sofrimento de uma doença evitável. É menos dor, mais saúde e mais dignidade para as pessoas”, ressaltou. São na verdade menos famílias vivendo o drama de uma doença evitável. Mesmo assim, os números ainda carregam uma lembrança incômoda: em apenas um ano 14 pessoas morreram por doenças relacionadas à falta de saneamento.

Para João Igor Lemos, gerente executivo de operações da concessionária Águas de Teresina, zerar esse número exige mais do que obras. “É fundamental continuar expandindo o esgotamento sanitário para áreas que historicamente ficaram à margem da infraestrutura urbana”, explica, relacionando a redução nas mortes e nas internações por doenças de veiculação hídrica está diretamente ligada à expansão da rede de esgotamento sanitário e à regularidade do abastecimento de água tratada.

“Esse é um indicativo muito claro de que o saneamento impacta diretamente a saúde pública, principalmente nas áreas mais vulneráveis”, destacou Igor, acrescentando, porém, que a transformação depende de uma engrenagem coletiva. “A empresa implanta a rede, investe e amplia o sistema. Mas é essencial que os moradores conectem seus imóveis à rede disponível. Sem essa ligação, o ciclo do saneamento não se completa”.

O avanço também depende de integração entre políticas públicas. Habitação, urbanização, saúde e educação sanitária precisam caminhar juntas. “Saneamento é parte central da solução, mas precisa atuar em conjunto com outras políticas sociais para gerar impacto pleno”, pontua, lembrando que nem sempre levar essa infraestrutura é simples. Os desafios vão da geografia à urbanização precária de algumas áreas da cidade.

“Em determinados locais há restrições ambientais, relevo complexo e ocupações que exigem soluções técnicas mais sofisticadas”, explica João Igor. Mesmo assim, o avanço dos últimos oito anos redesenhou o mapa do saneamento na capital. “Quando assumimos a operação, Teresina tinha apenas 19% de cobertura de esgoto. Hoje chegamos a 59%. É um salto significativo que demonstra planejamento e capacidade de execução”, completou.

E isso é exemplificado no Lindalma Soares, onde a mudança chegou em forma de rede. Em 2025, a água tratada finalmente passou a correr nas torneiras do bairro. Foram 22 quilômetros de tubulação instalados, beneficiando mais de 10,8 mil pessoas. O fim de um problema histórico. “Encerrar esse ciclo de desabastecimento representou um avanço enorme para a dignidade e para a saúde das famílias da região”, afirma João Igor.

Agora, o desafio é consolidar o sistema e avançar na próxima etapa: a expansão do esgotamento sanitário. Mas talvez o retrato mais poderoso dessa transformação não esteja em gráficos nem relatórios. E ele está na casa de Danielle Mara. Também mãe solo, com três filhas, ela vivia em uma pequena casa de taipa. O banheiro era improvisado com lona. Nos dias de vento forte, a estrutura ameaçava desaparecer.

O inverno, como os piauienses chamam o período de chuvas, era um tempo de medo. “Ou eu comia ou eu construía o banheiro”, lembra. Até que uma ação social envolvendo empresários e colaboradores da concessionária mudou a história da família. Danielle recebeu um banheiro sustentável. Paredes firmes. Vaso sanitário. Água tratada. Elementos simples para quem sempre os teve. Transformadores para quem nunca os conheceu. “Era um sonho distante que eu estava vivendo”, diz.

Hoje, no Lindalma Soares, mais de 10 mil pessoas recebem água tratada. Mas talvez a maior obra ali não seja de concreto. É simbólica. É a menina que atravessa a adolescência com dignidade. É o menino autista que sente a água limpa do chuveiro pela primeira vez. É a mãe que não precisa mais escolher entre comer ou construir um banheiro.

Saneamento é isso. A política pública que raramente aparece nas fotos, mas altera destinos. A engenharia silenciosa que transforma subsolo em saúde. Em Teresina, ainda falta muito chegar a todos, mas a revolução mais profunda da cidade continua acontecendo fora do campo de visão. Debaixo da terra. E exatamente por isso, talvez seja a que mais transforma o que acontece na superfície da vida.

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