Lealdade e respeito: o que a nova sensibilidade masculina revela sobre nosso tempo
O fato de isso ainda soar como novidade revela o quanto nos acostumamos com uma masculinidade rudeUma nova sensibilidade masculina está chamando atenção. Juliano Floss saiu do BBB 26 como um dos nomes mais comentados da reta final. Ao longo do confinamento, falou várias vezes da namorada, Marina Sena, expressando saudade, afeto e desejo de reencontro. O ponto mais interessante, porém, não é a curiosidade em torno da vida dele, mas o que essa imagem pública ajuda a iluminar: em um ambiente em que muitos homens ainda se organizam pela lógica da camaradagem agressiva, ver um homem falar com afeto da mulher que ama e, ao mesmo tempo, demonstrar lealdade e afeto também numa amizade com uma mulher ainda chama atenção mais do que deveria. E isso diz muito sobre o nosso tempo.
E é aqui que nossa conversa começa!
O que certas figuras masculinas estão despertando hoje não é apenas admiração estética ou curiosidade de rede social. O que chama atenção é uma forma menos hostil de existir. Homens que escutam, que sabem se expressar, que choram sem fazer disso uma humilhação, que não transformam convivência em disputa e que não precisam humilhar ninguém para parecer homens. O fato de isso ainda soar como novidade revela o quanto nos acostumamos com uma masculinidade rude, defensiva e emocionalmente empobrecida.
Quando a grosseria masculina vira traço de identidade
Uma das coisas mais difíceis nessa conversa é o quanto a grosseria foi banalizada. Em muitos contextos, o homem mal-educado não é visto como alguém emocionalmente limitado. É visto como espontâneo. É lido como “homem raiz”. Essa idealização da rusticidade masculina empobrece tudo: empobrece as amizades, impedindo trocas genuínas; empobrece o ambiente de trabalho, empobrece os vínculos familiares, e empobrece, por fim, a vida das mulheres que atravessam a vida desses homens.
Por que não se trata apenas de um homem ruim para se relacionar amorosamente. Trata-se, muitas vezes, de um homem difícil de conviver.
É nesse ponto que entra uma crítica importante à performance de gênero. Muitos homens não estão simplesmente “sendo quem são”; estão repetindo um personagem aprendido. O problema é que, quando a masculinidade vira apenas performance, a convivência vira palco. E palco não é lugar de encontro.
O que muita gente chama de “homem com testosterona”
Uma das expressões mais sintomáticas da internet recente é a ideia de que determinado homem “tem testosterona”, como se isso bastasse para explicar seu valor. Quase nunca se está falando de hormônio em sentido biológico. Fala-se de um personagem cultural: um homem mais bruto, mais agressivo, mais dominante. Só que, nesse pacote simbólico, se misturam coisas muito diferentes. Muita mulher usa essa linguagem tentando nomear presença, energia, iniciativa ou segurança. Mas, em vez de desejar um homem inteiro, maduro e capaz de vínculo, acaba desejando uma caricatura de virilidade.
É por isso que o debate sobre masculinidade frágil importa. Um homem verdadeiramente forte não deveria depender da humilhação do outro, da objetificação das mulheres, da dificuldade de pedir desculpas ou da incapacidade de escutar para se sentir homem. Quando qualquer traço de delicadeza, escuta ou emoção é percebido como ameaça à identidade masculina, o que existe ali não é força. É fragilidade mascarada.
A lealdade masculina quase sempre tem dono
Muitos homens sabem ser leais, mas essa lealdade costuma ter um endereço muito específico. Frequentemente, ela se dirige ao grupo masculino — à velha aliança entre homens que se protegem, se justificam e, muitas vezes, se silenciam mutuamente. É por isso que existe uma assimetria tão reveladora na experiência cotidiana de homens e mulheres. Quase toda mulher conhece outra mulher que já foi assediada, ameaçada, coagida ou agredida. Às vezes, conhece várias. Mas, quando se pergunta a muitos homens se eles conhecem um homem abusivo, assediador ou violento, a resposta costuma ser não. E esse “não” diz muito.
Não quer dizer, necessariamente, que esses homens nunca tenham cruzado com esse tipo de comportamento. Quer dizer, muitas vezes, que aprenderam a não reconhecê-lo com a gravidade que ele tem. Certas falas, certos gestos, certas humilhações e certas formas de invasão foram tão banalizadas que deixaram de parecer violência. Viraram “jeito de homem”. Viraram comentário de grupo, piada de roda.
É justamente aí que a lealdade masculina se torna um problema cultural. Porque, em vez de interromper, corrigir ou se afastar, muitos homens seguem protegendo outros homens pelo pacto silencioso de pertencimento. Não é raro que um homem reconheça o sofrimento de uma mulher apenas quando ela é sua irmã, sua filha, sua mãe ou sua parceira. Como se a violência só ganhasse peso moral quando atravessa o seu círculo afetivo mais íntimo. Fora disso, ainda há tolerância demais, silêncio demais, conivência demais.
E essa naturalização não é pequena. Em 2024, o Mapa da Segurança Pública registrou uma média de cerca de quatro mulheres vítimas de feminicídio por dia no Brasil. Em 2025, o Ministério da Justiça informou que 1.561 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2024. Esses números não nascem do nada. Eles se inscrevem numa cultura em que domínio, agressividade, controle e desprezo pelo afeto ainda são lidos, por muita gente, como sinais de masculinidade legítima. A glorificação desse modelo não explica sozinha a violência contra as mulheres, mas ajuda a sustentar o ambiente simbólico em que ela é banalizada, minimizada ou tolerada.
O que a nova sensibilidade masculina pode estar revelando
É justamente nesse cenário que certos homens passam a chamar atenção de outro jeito. Não porque sejam perfeitos, nem porque representem uma revolução pronta. Mas porque ajudam a expor, por contraste, o desgaste de um modelo. Quando um homem sabe ouvir, sabe falar, sabe chorar, sabe respeitar, sabe ser leal e não precisa performar brutalidade para existir, ele não está fazendo algo extraordinário. Está apenas recusando um roteiro masculino que por muito tempo foi tratado como natural.
Juliano Floss, Junior, João Lucas, João Guilherme. Talvez esses nomes interessem menos por si mesmos e mais pelo que ajudam a iluminar. Eles apontam, ainda que de forma imperfeita, para um outro imaginário possível de masculinidade: menos defensivo, menos hostil, menos sustentado pela necessidade de dominar, ridicularizar ou endurecer.
A todos os homens que se reconhecem nesse traço, talvez valha dizer: permaneçam. Permaneçam na escuta, na presença, no respeito, na lealdade. Permaneçam na coragem de sentir sem transformar sensibilidade em vergonha. Permaneçam na recusa de uma masculinidade que só se sustenta diminuindo o outro. Se isso hoje chama atenção, não é porque seja espetacular. É porque nos acostumamos, por tempo demais, com muito pouco. E talvez uma das travessias mais importantes do nosso tempo seja justamente esta: reaprender a reconhecer valor em homens que não precisam ferir para existir.