Conecta Piauí

Notícias

Colunas e Blogs

Blogs dos Municípios

Outros Canais

Opinião

Análises, reflexões e posicionamentos sobre os bastidores da política, os desafios do Piauí e os temas que impactam a sociedade. Aqui, o olhar é crítico, a informação é direta e a opinião tem voz.

Liana Chaib homenageia tia Ausair e relembra legado de amor e coragem

Em um relato emocionado, Liana Chaib relembra a força, o amor e o legado de tia Ausair
Redação

TIA AUSAIR

A irmã do meu pai que mais conheci de perto foi a tia Ausair. Nas minhas memórias afetivas- e com ela tenho muitas – ela sempre foi a minha protetora: o lugar que eu corria quando queria proteção, aconchego e uma certa cumplicidade.
O jeito de me agradar era sempre mantendo seu frigobar com chocolates – sabia que eu gostava. Naqueles chocolates todas as lágrimas eram esquecidas; as mágoas eram transformadas em perdão e todas as travessuras passavam a ser compreendidas como coisas de infância.

Minha tia era uma mulher à frente do seu tempo. 

Para mim eu a via como a Golda Meir- que foi primeira ministra do Estado de Israel, conhecida por ser uma mulher forte e decidida. Tia Ausair era assim: a guardiã da sua família; a liderança familiar, aquela que estava sempre pronta a defender os seus, principalmente as 2 filhas.

Por elas brigava, lutava e não desistia. Lutar contra a tia Ausair era saber que iria perder, ainda que fosse pela insistência.  

Tinha uma inteligência privilegiada e que se associava a uma irreverência que lhe era própria. Mas mais do que a inteligência, possuía uma sabedoria, própria daqueles que olham mais do alto, que sabem para onde o caminho vai dar . Quando juntava com meu pai eram imbatíveis.

Quase todas as manhas minha tia ia tomar café com meu pai e ficavam horas trancados, conversando e, às vezes, maquinando sobre muitas coisas. Por vezes cantavam,  escutavam musicas juntos e declamavam poesias.  Eram almas gêmeas. Bastavam a si mesmos.

De lá saíam planos, projetos e muitas artimanhas. Acho que o Estado do Piaui era pequeno para os dois, porque eles eram engenhosos e tinham mentes brilhantes.

Tia era completa, porque entendo um ser completo como aquele que viveu a vida, desfrutou do que ela pode oferecer de bom, de melhor. Gostava do brilho, da luz , da alegria. Vestia-se de forma a que percebêssemos o quanto a sua alma brilhava por dentro, o quanto tinha sede de viver.; de fazer acontecer. Vivia plenamente. Viver plenamente é aceitar a vida com tudo que ela oferece: momentos bons e momentos ruins. Ela sabia que daria a volta por cima, como tantas vezes o fez.

Enfrentou a morte do tio Orlando, mas continuou o legado. Manteve a família unida, com seu pulso forte. Fez-se presente sempre; fez-se necessária; fez-se amada por todos que a conheceram.

A minha tia era como uma segunda mãe para mim. Ana e Lenita como irmãs porque lá na sua casa deixei o que de mais belo tenho: memórias afetivas, que nos conduzem ao longo da vida e que nos embalam nos momentos difíceis.
Serei eternamente grata por essas memórias. Como diria meu pai: das ccoisas que não tem preço. 

E aqui agradeço de coração : obrigada tia, por ter feito parte da melhor época da minha vida, período em que ingenuidade, a boa fé  e as brincadeiras formam nosso caráter.

Minha tia tinha uma presença tão marcante que sua marca nunca perecerá. A flor que a acompanhou durante a vida acompanhará a todos nós, como símbolo de beleza, de amor , de renascimernto e esperança.

Hoje a tia renasce e floresce em outro lugar, mas o seu perfume sempre exalará entre aqueles que com ela partilharam a vida. E esse partilhamento eu vi e presenciei tantas vezes, com gestos singelos mas tão cheios de amor e gratidão, como oferecer quibes, mandar esfirras, comprar um presente. 

Era sua forma de dizer que estava ali, que era grata, que nunca lhe faltarão bandejas de quibes. Ouvi isso tantas vezes, com relação a tantas pessoas. 

Gestos que o dinheiro não compra e que so a pureza da alma pode compreender.

Mas como a flor, tinha a beleza como um ritual, como algo a ser buscado dia após dia. Era como se soubesse que o corpo era apenas o invólucro de uma  alma bela.

Não saía na rua despenteada, desarrumada ou sem batom. Isso transmite amor próprio, que vai além da vaidade. Uma lição de vida: se não amarmos a nós mesmos quem nos amará?

As vezes me pergunto porque alguns têm o privilègio do tempo? De ficarem mais tempo com os seus? 

Acho que a tia viveu para nos ensinar que a vida vale a pena, em qualquer idade e em quaisquer circusntâncias.

Para ela não havia idade, havia momentos, havia sorrisos. 

Acho que essa é a grande lição: que o tempo não nos envelheça, não nos torne sem propósitos, não nos torne amargos.

Há sempre o que desfrutar.

E como minha tia não gostava de falas longas, termino com frases que são a sua própria personificação.

Vivi e morri acima de minhas posses.

Fiz tudo o que quis e so não fiz mais porque não me deixaram.

Ou seja, vivi, amei, sorri, chorei, cantei e conclui o ciclo da vida como uma bailarina que encerra o show em meio a aplausos de pé, pelo belo espetáculo que ofereceu.

As cortinas se fecham, mas o espetáculo continua no dia a dia, com as lembranças, histórias, memórias  e ensinamentos.

Liana Chaib.