Violência contra a mulher: quando o agressor não corresponde aos estereótipos
O agressor pode estar na igreja, na academia, no ambiente de trabalho ou em fotos sorridentesA violência contra a mulher raramente se apresenta de forma explícita. Na maioria das vezes, ela não vem estampada no rosto do agressor, nem é anunciada em gestos grandiosos. Pelo contrário, costuma habitar espaços socialmente legitimados, cotidianos e, muitas vezes, idealizados. O agressor pode estar na igreja, na academia, no ambiente de trabalho, em fotos sorridentes com os filhos ou em encontros informais com amigos. É justamente essa normalização que sustenta a perpetuação da violência.
Em um país onde mulheres levaram séculos para conquistar direitos mínimos, é inevitável reconhecer que praticamente todas serão atravessadas, em algum momento da vida, por algum tipo de violência. E não apenas a física, mas também a violência psicológica, simbólica, institucional e relacional, que se reproduz de maneira silenciosa e constante. Essa estrutura não é acidental: ela está viva e operando diariamente.
Há ainda um elemento que torna tudo mais perturbador: a agressão aconteceu na madrugada do Réveillon. Um momento socialmente marcado pela suspensão do medo, pela fantasia de recomeço, pela tentativa coletiva de não pensar no que dói. É quando desejamos que o novo ano traga leveza, reparação e futuro. E então amanhece — e a notícia chega.
É nesse amanhecer que a violência se impõe com mais força: quando o horror interrompe o ritual de esperança e nos obriga a lembrar que a brutalidade não respeita datas, promessas ou transições simbólicas. A partir daí, o que se desenrola não é apenas a investigação de um crime, mas o desvelamento de tudo o que já estava em curso, silencioso, antes mesmo dos fogos.
A ESPETACULARIZAÇÃO DA VIOLÊNCIA E O ADOECIMENTO COLETIVO
Diante de casos extremos, observa-se um movimento recorrente: imagens são compartilhadas compulsivamente, vídeos circulam sem qualquer cuidado ético, e o sofrimento feminino passa a ser consumido como espetáculo. A lógica parece ser a de chocar, impressionar e testar limites emocionais. No entanto, é preciso perguntar: quem se beneficia dessa exposição do horror?
A mídia, inserida em uma lógica capitalista de lucro, frequentemente transforma a violência em produto. O sofrimento feminino é exibido, repetido e explorado, enquanto as respostas estruturais seguem ausentes. Como resultado, a indignação coletiva tende a se esgotar em frases como “tem que apodrecer na cadeia”, que expressam raiva legítima, mas não produzem transformação real.
Embora o desejo por justiça seja compreensível, ele não pode se restringir à punição individual. Afinal, quando o foco permanece apenas no agressor isolado, o sistema que permite e sustenta a violência permanece intacto.
VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER E A LÓGICA ESTRUTURAL DO SISTEMA
A violência contra a mulher não é um desvio individual nem um “caso isolado”. Ela é produzida dentro de um sistema que precariza vidas, hierarquiza corpos e naturaliza desigualdades. Em um modelo social que lucra com a exploração, não há espaço genuíno para a emancipação dos grupos oprimidos.
Esse mesmo sistema que normaliza a violência contra mulheres é o que autoriza a invasão de territórios periféricos, a morte de pessoas negras e pobres, e a negação sistemática de direitos à população LGBTQIAPN+. Portanto, não se trata de coincidência, mas de coerência estrutural. Os corpos violentados seguem uma lógica comum: são aqueles considerados descartáveis.
Mesmo quem se reconhece politicamente ao lado dos oprimidos não está totalmente protegido dos efeitos dessa engrenagem. A violência não está distante; ela atravessa lares, amizades, famílias e círculos sociais próximos.
Frequentemente, o agressor já havia sido evitado em festas, comentado em conversas informais ou tolerado em grupos com histórico de comportamentos abusivos. Ainda assim, nada foi feito.
A INÉRCIA MASCULINA COMO FORMA DE CUMPLICIDADE
Nesse ponto, torna-se inevitável falar da inércia masculina diante da violência doméstica. Muitos homens não a praticam diretamente, mas a sustentam por meio do silêncio, da omissão e da relativização. Essa inércia não é neutra; ela é um mecanismo ativo de manutenção da violência.
Entre os fatores que explicam esse comportamento, destacam-se a lealdade de gênero, que prioriza vínculos masculinos em detrimento da ética; a normalização cultural de comportamentos abusivos; o medo do confronto social; e, sobretudo, uma hierarquia de valores onde a preservação da amizade se sobrepõe à vida e à dignidade das mulheres.
Quando a violência é tratada como “problema do casal” ou “momento de raiva”, ela é despolitizada e esvaziada de seu caráter estrutural. Assim, o agressor é protegido e a vítima é isolada.
UM CHAMADO À RESPONSABILIDADE: CONTRIBUIÇÃO CULTURAL
Essa lógica não é recente. A literatura e a arte vêm denunciando, há décadas, o lugar social imposto às mulheres e a permissividade concedida aos homens. Um exemplo potente aparece na série Anne with an E, quando a personagem lê uma carta que, apesar de ambientada em outro século, ecoa com força no presente:
“É permitido aos homens agir impunemente, comportar-se de forma irresponsável e saciar seus desejos. E é esperado que nós, mulheres, suportemos tudo isso em silêncio, para manter nossa honra e nossas perspectivas de futuro. Quando nos manifestamos, somos rotuladas de histéricas, difíceis ou mal-educadas.
Nossos direitos só são reconhecidos quando estamos associadas a homens — como mães, esposas, filhas ou irmãs. Por que não temos os mesmos direitos humanos concedidos aos homens no momento em que nascem?
Isso não é uma condenação generalizada dos homens. É um chamado à ação. É hora de eles decidirem se caminharão ao nosso lado, como parceiros na luta por justiça e igualdade. Há espaço para eles nessa luta. Se recusarem, teremos de seguir adiante sem eles, enquanto construímos um mundo melhor.”
Esse trecho explicita algo central: não se trata de demonizar homens, mas de convocá-los à responsabilidade. A neutralidade, nesse contexto, não é isenção. É posicionamento.
VERGONHA ÉTICA COMO LIMITE NECESSÁRIO
Sentir vergonha de manter vínculos com homens violentos não é excesso moral. É limite ético. A vergonha, quando fundamentada em valores, atua como regulador social. Ela define o que não pode ser tolerado.
A violência doméstica não é descontrole emocional. É exercício de poder, aprendido, reforçado e sustentado pela impunidade social. No Brasil, mulheres seguem sendo assassinadas de forma recorrente, o que evidencia não apenas falhas individuais, mas um colapso coletivo na proteção da vida feminina.
Quando homens se calam, falham com as vítimas e reforçam modelos de masculinidade que também os aprisionam. Amizade saudável pressupõe responsabilização, não cumplicidade.
PARA ALÉM DA PUNIÇÃO: CAMINHOS POSSÍVEIS
O sistema que produz a violência é o mesmo que se mostra incapaz de encerrá-la. Por isso, as respostas não podem ser apenas institucionais. Elas precisam ser coletivas, políticas e relacionais. Movimentos sociais, especialmente o movimento de mulheres, seguem sendo forças fundamentais na construção de justiça real.
A luta contra a violência contra a mulher exige enfrentamento estrutural, ruptura com ideologias que sustentam o patriarcado e compromisso ético cotidiano. Enquanto houver silêncio, haverá violência. Rompê-lo é uma responsabilidade coletiva.
Marianne Brandão
Psicologia Clínica & Terapia de Casais
Nota cultural: Trecho adaptado da série Anne with an “E” (Netflix), utilizado aqui como referência artística e reflexiva sobre desigualdade de gênero.