Vorcaro celebrou emenda de Ciro Nogueira em mensagem antes de ser preso

PF encontrou diálogos comprometedores no celular do banqueiro
Redação

A prisão do fundador do Banco Master, Daniel Vorcaro, pela Polícia Federal nesta quarta-feira (04/03), abriu uma janela sobre a rede de relações políticas construída pelo banqueiro em Brasília. Entre os elementos que mais repercutiram estão mensagens encontradas no celular de Vorcaro que revelam tanto a comemoração de uma emenda apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI) quanto uma ordem de pagamento a alguém identificado apenas como "Ciro".

A emenda em questão foi apresentada por Ciro Nogueira em 13 de agosto de 2024, durante a tramitação da PEC de autonomia financeira do Banco Central. A proposta sugeria elevar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF. A data coincide exatamente com a das mensagens em que Vorcaro comemora a iniciativa, chamando-a de "bomba atômica no mercado financeiro" por beneficiar bancos médios como o Master em detrimento das grandes instituições. A emenda ficou conhecida nos bastidores como "emenda Master", já que o banco usava a cobertura do FGC em sua campanha de marketing para atrair investidores com CDBs que chegavam a 140% do CDI.

A proposta nunca avançou. Após a apresentação, o então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, ligou diretamente para Ciro Nogueira para dizer que considerava a medida inadequada para o mercado. O senador recuou e o projeto foi engavetado.

Mas não foi só a emenda que chamou atenção nas investigações. Em maio de 2024, o cunhado de Vorcaro e suposto operador financeiro do grupo, Fabiano Zettel, enviou ao banqueiro uma lista pedindo autorização sobre prioridades de pagamentos. Em um dos itens constava: "Pagamento pra Ciro". Vorcaro autorizou os repasses. A investigação ainda não obteve os dados bancários para verificar a natureza do valor nem se o destinatário era o senador ou outra pessoa com o mesmo nome.

As mensagens também revelaram outros contatos políticos do banqueiro. Em agosto de 2025, Vorcaro citou uma visita à residência oficial do Senado, onde mora o presidente Davi Alcolumbre. Há ainda registros de um jantar com o presidente da Câmara, Hugo Motta, e seis empresários na residência oficial, realizado em 26/02/2025, menos de um mês após Motta ter assumido o comando da Casa.

Todo o material foi enviado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, que é o responsável pelo caso por envolver autoridade com foro privilegiado. Não há investigação formal instaurada contra Ciro Nogueira até o momento.

O senador negou qualquer envolvimento e contestou a associação do seu nome à referência de pagamento encontrada nas mensagens. Em nota, afirmou que "segundo o IBGE, existem mais de 11 mil pessoas com o nome Ciro no Brasil, incluindo um 'Ciro' entre os advogados que atuam na defesa de Vorcaro". Disse ainda que Vorcaro "jamais pertenceu ao meu círculo de amizades próximas" e que está "absolutamente tranquilo quanto aos resultados das investigações".

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