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Reflexões sobre saúde mental, afetos e os labirintos das relações humanas

Andy Sachs e a coragem de recomeçar

Sobre reencontrar uma personagem querida e perceber que a vida adulta nem sempre segue o roteiro
Redação

Todo mundo que me conhece um pouco sabe que O Diabo Veste Prada é um dos meus filminhos de conforto.

Daqueles filmes que a gente assiste quando quer voltar para um lugar conhecido. Um filme-afeto. Um filme que não precisa mais surpreender, porque já virou companhia. Eu já assisti tantas vezes que algumas cenas parecem quase familiares demais — como se aquele universo, com Miranda, Emily, Andy e a Runway, já fizesse parte de uma memória afetiva minha.

Reencontrar Andy Sachs tantos anos depois

Reencontrar Andy Sachs, tantos anos depois, mexeu comigo de um jeito curioso. Quando assisti ao filme pela primeira vez, eu tinha mais ou menos a idade dela. Eu também estava ali, aos 20 e poucos, tentando entender que caminho seguir, o que fazer da vida, como me tornar alguém no mundo.

Naquela época, eu tentava construir meu caminho na informática. E isso fazia total sentido. Era um caminho óbvio, quase que natural, aquele que todo mundo esperava que eu seguisse. Desde os 15 anos, eu mexia com tecnologia, gostava de informática e transitava por esse universo com familiaridade. De certa forma, parecia que a vida já tinha me apontado uma direção.

Mas a vida nem sempre respeita os caminhos que parecem mais óbvios. E anos depois, a psicologia atravessou a minha vida de um jeito muito concreto.

Depois de um acidente, passei cinco meses e meio internada e, nesse período, fui acompanhada diariamente por uma psicóloga. Foi ali, sendo cuidada em um dos momentos mais difíceis da minha vida, que comecei a me reconhecer na potência da escuta, do cuidado e da presença clínica.

Com 30 e poucos anos, a psicologia deixou de ser apenas uma possibilidade e começou a se tornar caminho. Hoje, olhando para trás, consigo ver que aquilo não foi atraso.

Foi percurso.

Quando a vida não sai como o esperado

Talvez por isso tenha sido tão interessante reencontrar Andy não como uma mulher completamente resolvida, dona da Runway, casada, impecável, com a vida organizada e todas as respostas na mão.

Mas justamente o contrário, a Andy volta recomeçando.

Com a carreira em reconstrução, aluguel atrasado, vida afetiva atravessada e aquela sensação tão humana de estar tentando se reorganizar depois que a vida não saiu exatamente como o esperado.

E talvez seja justamente isso que torne a personagem tão interessante agora.

Porque, na vida real, nem todo mundo chega aos 40 com tudo resolvido. Nem todo mundo segue uma linha reta. Nem todo mundo escolhe uma profissão aos 20 e permanece nela para sempre. Nem toda mulher amadurece dentro de um roteiro limpo, estável e admirável aos olhos dos outros.

Às vezes, aos 20, estamos tentando caber em uma vida que parecia óbvia.

Às vezes, aos 30, descobrimos outro caminho.

Às vezes, aos 40, precisamos recomeçar.

E aos 50, 60 ou mais, também.

A cobrança por uma vida pronta

Existe uma cobrança silenciosa para que a vida esteja “pronta” em determinada idade. Como se houvesse um prazo para descobrir quem somos, uma data limite para dar certo, um momento exato em que tudo deveria finalmente fazer sentido.

Essa cobrança aparece em frases aparentemente simples:

“Mas você vai começar de novo agora?”

“Depois de tanto tempo, vai mudar de área?”

“E se não der certo?”

“Você não acha tarde demais?”

Às vezes, ela nem vem de fora. Vem de dentro.

Vem quando a pessoa se compara com colegas que parecem mais estáveis, com amigas que parecem ter a vida afetiva resolvida, com pessoas que seguiram um caminho aparentemente mais direto.

Mas a vida não funciona como uma linha reta. E maturidade não significa ausência de dúvida.

Muitas vezes, amadurecer é justamente conseguir olhar para uma escolha antiga e reconhecer que ela fez sentido em algum momento, mas já não cabe mais.

Recomeçar não é fracasso

Recomeçar aos 40 não é fracasso.

Recomeçar depois de uma separação não é fracasso.

Mudar de profissão não é fracasso.

Admitir que uma escolha não cabe mais não é fracasso.

Voltar algumas casas para reconstruir com mais verdade também não é fracasso.

Às vezes, o recomeço é justamente o momento em que a pessoa deixa de sustentar uma vida que parecia correta para começar a construir uma vida mais própria.

Isso pode acontecer depois de um término, de uma perda, de uma demissão, de uma mudança de cidade, de uma crise emocional, de um adoecimento ou simplesmente depois de muitos anos tentando caber em um lugar que já não fazia sentido.

Nem sempre o recomeço vem bonito.

Às vezes, ele vem com medo, insegurança, contas atrasadas, solidão, sensação de vergonha e perguntas demais.

Mas ainda assim pode ser um movimento profundamente vivo.

Andy Sachs e a mulher real

Andy Sachs continua sendo competente. Continua sendo inteligente. Continua sendo alguém por quem torcemos.

Mas agora ela aparece menos como uma promessa de sucesso perfeito e mais como uma mulher real: alguém que perdeu coisas, fez escolhas, pagou preços e ainda está tentando descobrir o próximo passo.

E talvez seja isso que torne esse reencontro tão bonito.

Porque mulheres competentes também se sentem perdidas.

Mulheres inteligentes também precisam recomeçar.

Mulheres fortes também cansam.

Mulheres admiráveis também se frustram, se reorganizam, erram rotas, mudam de ideia e precisam reconstruir a própria vida.

Existe uma expectativa muito dura sobre a mulher adulta: ela precisa dar conta, ser bem-sucedida, amar bem, trabalhar bem, envelhecer bem, decidir bem, sofrer discretamente e ainda parecer inteira.

Mas ninguém atravessa a vida sem rachaduras.

E talvez uma das maiores delicadezas de reencontrar Andy nesse momento seja justamente vê-la humana. Não perfeita. Não acabada. Não completamente pronta.

Humana.

A vida ainda pode sair de outro jeito

Porque não existe beleza apenas em vencer.

Existe beleza também em recomeçar sem garantia.

Em se reorganizar depois de uma queda.

Em aceitar que a vida não saiu como o esperado, mas ainda pode sair de outro jeito.

Talvez a pergunta mais importante não seja: “Por que ela ainda não chegou lá?”

Talvez seja:

Quem disse que existe uma idade certa para chegar?

Talvez seja por isso que eu tenha lembrado de um trecho de Filtro Solar, aquele texto que tanta gente da minha geração ouviu como uma espécie de conselho para a vida:

“As pessoas mais interessantes que eu conheço não sabiam, aos 22, o que queriam fazer da vida. Alguns dos quarentões mais interessantes que eu conheço ainda não sabem.”

Talvez Andy Sachs esteja justamente nesse lugar.

Não no lugar do fracasso, mas no lugar profundamente humano de quem ainda está se perguntando, ainda está escolhendo, ainda está tentando.

Porque, no fim das contas, talvez recomeçar aos 40 não seja estar atrasada.

Talvez seja só continuar interessante o suficiente para mudar de rota.