Família denuncia negligência após alta e morte de mulher em Teresina
Parentes afirmam que médica pediu internação, mas plantonista deu alta no Hospital do Dirceu II
A morte de Maurineide Santos, de 39 anos, reacendeu o debate sobre conduta médica e protocolos de atendimento na rede pública de saúde de Teresina. A família da paciente procurou o Conecta Piauí para denunciar suposta negligência no atendimento inicial prestado no Hospital Alberto Neto, no bairro Dirceu II, na zona Sudeste da capital.
Maurineide faleceu no dia 31, no Hospital de Urgência de Teresina (HUT). De acordo com o atestado de óbito, a causa da morte foi choque cardiogênico, cardiopatia crônica, etilismo crônico e neuropatia crônica.
Segundo a irmã da vítima, Maurineide deu entrada na unidade no dia 21 de janeiro, com sintomas considerados graves. “Ela estava com cansaço, falta de ar, febre, o corpo inchado e sem conseguir urinar direito. O quadro era preocupante, com suspeita de insuficiência cardíaca”, relatou.
Ainda conforme a família, foram realizados exames laboratoriais, três eletrocardiogramas e um raio-X do tórax, que apontou presença de líquido no pulmão. “Os exames de sangue e urina deram normais, mas o raio-X mostrou água no pulmão. A médica que atendeu durante o dia pediu para ela ficar internada e solicitou uma tomografia para o dia seguinte, porque percebeu que algo não estava certo”, afirmou a irmã.
TROCA DE PLANTÃO FATAL
O ponto central da denúncia envolve a troca de plantão. De acordo com o relato, ao assumir o atendimento no período noturno, o médico identificado como Charles teria decidido conceder alta hospitalar à paciente. “Ele disse que ela não tinha sinais vitais graves e que ia dar alta porque quem estava assumindo o plantão era ele. Parecia que a palavra dele valia mais que a da médica anterior”, declarou.
A paciente teria sido liberada com prescrição de amoxicilina, antibiótico geralmente indicado para tratar infecções bacterianas. “Ele afirmou que poderia ser alguma infecção, mesmo sem comprovação nos exames. Como alguém pode receber antibiótico sem infecção comprovada? Como mandar para casa sem concluir os exames que já estavam solicitados?”, questionou a familiar.
PEDIDOS DA FAMÍLIA NEGADOS
A família afirma que pediu para que a paciente permanecesse internada. “Eu pedi para ele não dar alta. Ela implorava porque não se sentia bem. Mas ele deu alta mesmo assim”, disse.
Após deixar o hospital, Maurineide ainda foi levada a outras duas unidades de saúde nos dias seguintes. Segundo a irmã, a orientação recebida foi manter a mesma medicação. “Ela passou o sábado e o domingo tomando a mesma medicação, mas foi piorando”, contou.
No dia 26 de janeiro, a paciente retornou ao Hospital do Dirceu II em estado mais grave. “Chegou lá, ela não aguentou mais. Foi entubada e depois transferida para o HUT”, relatou.
Maurineide permaneceu quatro dias intubada, precisou de hemodiálise e aguardava vaga em Unidade de Terapia Intensiva. No dia 31, não resistiu.
PEDIDO DE JUSTIÇA
Para a família, a decisão de conceder alta foi determinante para o desfecho. “Se ela tivesse ficado internada, se tivesse feito a tomografia no dia 22, como a médica pediu, talvez estivesse viva. A negligência foi no hospital do Dirceu II”, afirmou a irmã.
Os parentes registraram denúncia na ouvidoria, no distrito policial da área e no Ministério Público do Estado do Piauí. “Já fomos atrás. Vamos pegar o prontuário para dar entrada na justiça. Isso não é apenas um desabafo. É um pedido de justiça”, declarou.
NOTA DE ESCLARECIMENTO
A Fundação Municipal de Saúde informa que o referido caso está sendo investigado. Toda a documentação e o prontuário foram entregues às autoridades competentes, incluindo o Conselho Regional de Medicina (CRM) e o Poder Judiciário, que conduzirão a devida análise e julgamento.