Coaf aponta faturas de Ciro Nogueira pagas por Átila Lira e Júlio Arcoverde

Os valores, que somam cerca de R$ 17 mil, aparecem em um Relatório de Inteligência Financeira
Redação

O senador Ciro Nogueira (PP-PI) teve faturas de cartão de crédito pagas por dois deputados federais do Progressistas, partido que preside, de acordo com informações que constam em um comunicado ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), revelado pelo g1 e pela TV Globo . Os valores, que somam cerca de R$ 17 mil, aparecem em um Relatório de Inteligência Financeira (RIF) relacionado ao BK Bank, fintech apontada pela Polícia Federal como núcleo financeiro usado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) para lavagem de dinheiro. Segundo a Receita Federal, o crime organizado movimentou R$ 46 bilhões apenas pelo BK.

Em junho de 2024, o deputado Átila Lira (PP-PI) teria quitado um boleto de R$ 3.457 referente a um cartão de crédito do BRB em nome do senador. Quinze dias depois, o deputado Júlio Arcoverde (PP-PI), presidente do Progressistas no Piauí, teria pago outra fatura, desta vez no valor de R$ 13.693. O relatório destaca que o filho de Arcoverde, Júlio Ferraz Arcoverde Filho, é funcionário do gabinete de Ciro Nogueira desde 2020, atuando como auxiliar parlamentar com salário bruto de R$ 12.360.

Os dois deputados negaram irregularidades. Átila Lira afirmou que nunca pagou fatura de cartão de ninguém e que o comunicado da Caixa Econômica Federal está incorreto. Arcoverde disse que o pagamento pode estar relacionado a alguma encomenda feita ao senador durante viagens internacionais. "Às vezes ele viaja e eu peço algum remédio, alguma coisa, e aí ele passa o cartão para eu fazer o pagamento", declarou ao g1. Procurado, Ciro Nogueira classificou os questionamentos como "absurdo" e se recusou a responder.

Além dos pagamentos, a Caixa Econômica Federal classificou o comportamento da conta do senador como "inusitado" e apontou movimentações incompatíveis com seu patrimônio e ocupação profissional, operações que configurariam artifício para burlar a identificação da origem dos recursos, transferências para pessoas politicamente expostas sem justificativa econômica e remessas internacionais sem origem identificada. Entre elas, o senador recebeu o equivalente a R$ 25.821 em dólares transferidos por um condomínio em Miami Beach onde Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, possuía uma cobertura avaliada em R$ 180 milhões. A operação foi classificada como doação sem contrapartida.

O relatório também detalha a relação entre Nogueira e Vorcaro. Na quebra de sigilo telemático do banqueiro, o senador é descrito como "um grande amigo de vida". Em agosto de 2024, Vorcaro comemorou uma emenda apresentada por Nogueira que propunha quadruplicar o limite do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Dez dias antes da comemoração, o banqueiro havia estado no casamento da filha do senador, em Angra dos Reis. Um e-mail encontrado no celular de Vorcaro também registra uma viagem de helicóptero reservada por empresa do banqueiro para Nogueira e Antônio Rueda, do União Brasil, ao Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1, em Interlagos, em novembro de 2024.

Do ponto de vista legal, a quitação de boleto por terceiro é permitida pelo Código Civil. No entanto, a Lei de Lavagem de Dinheiro tipifica como crime o uso de terceiros para ocultar a origem de recursos. Para agentes públicos, a Lei de Improbidade Administrativa e o Código Penal também podem enquadrar a obtenção de vantagem patrimonial indevida no exercício do cargo.

Leia também