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Quebradeira de coco Chica Lera é homenageada em feira no Piauí

Liderança das quebradeiras de coco, Francisca Rodrigues dos Santos se tornou símbolo de resistência
Redação

Homenageada na III Feira da Agricultura Familiar, Povos Originários e Economia Solidária , Francisca Rodrigues dos Santos, a Chica Lera, construiu sua trajetória a partir dos babaçuais do Norte do Piauí, onde o trabalho com o coco marcou sua infância e deu início a uma vida dedicada à defesa das palmeiras e das comunidades tradicionais.

Ao longo das últimas décadas, ela se tornou uma das principais lideranças das quebradeiras de coco babaçu no Brasil, articulando a organização do movimento extrativista e atuando na defesa dos direitos das mulheres que dependem da palmeira para sobreviver. Sua história se confunde com a própria luta pela preservação ambiental na região.

Para Chica, o babaçu ultrapassa a dimensão do trabalho e representa uma relação de pertencimento com a natureza.

“A palmeira é a mãe de todas as mães. Não é só minha mãe. É mãe de milhões e milhões de mães nesse Brasil afora que ainda vive do coco babaçu.”

Essa relação de proximidade com a palmeira foi também o que impulsionou sua atuação política e comunitária. Chica participou da articulação das mulheres quebradeiras de coco e esteve entre as fundadoras do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), que se tornou uma das principais referências na defesa do extrativismo sustentável no país.

Ao receber a homenagem durante a feira, ela destaca a dimensão coletiva de sua trajetória e o papel das mulheres que caminharam ao seu lado ao longo dos anos.

“Eu não tenho nem palavras. Nunca passou pela minha cabeça um dia chegar aonde cheguei e levar outras companheiras junto. A história tem que ser contada. A minha história tem que ser contada, a sua história tem que ser contada algum dia.”

Feira valoriza histórias que marcam a luta dos povos tradicionais no Piauí

A escolha de Chica Lera como uma das homenageadas da III Feira da Agricultura Familiar reflete a relevância de sua trajetória para o fortalecimento das comunidades tradicionais e do extrativismo no Piauí.
 A secretária da Agricultura Familiar, Rejane Tavares, destaca que a liderança é uma referência histórica para as quebradeiras de coco babaçu do estado.

“Dona Chica Lera é um patrimônio histórico das quebradeiras de coco babaçu do Piauí. É uma figura que iniciou todo o processo de organização e valorização das quebradeiras de coco. Luta pela preservação dos babaçuais, pela preservação ambiental e foi uma das mulheres mais atuantes na criação do MIQCB aqui no estado do Piauí.”

A secretária ressalta que a homenagem busca reconhecer mulheres que ajudaram a construir a história da agricultura familiar, dos povos tradicionais e do extrativismo piauiense.
“Este ano, resolvemos homenagear mulheres que são patrimônios vivos dessa luta histórica, não apenas da agricultura familiar, mas também dos povos tradicionais e do extrativismo do Piauí.”
Mesmo após décadas de atuação, Chica Lera afirma que sua preocupação com o futuro permanece. Para ela, a continuidade dessa luta depende do engajamento das novas gerações na preservação dos babaçuais e no respeito às comunidades tradicionais.

“Não deixem a peteca cair. As quebradeiras mais novas, a juventude, precisam levar esse trabalho adiante, essa preservação do meio ambiente. Porque a gente não defende só a palmeira. A gente defende tudo o que existe dentro da terra, dentro do babaçual, e toda a vida que existe nele. Tem muitas vidas aqui dentro.”
Ela também chama atenção para os desafios de manter viva a tradição das quebradeiras de coco diante das transformações sociais e econômicas.

“Eu tenho essa preocupação. Mas será que essa nova geração que vem aí terá a mesma preocupação que nós temos? Não pode esquecer suas raízes, de onde veio e para onde vai. Quem serão as novas quebradeiras de coco?”

A homenagem na III Feira da Agricultura Familiar reconhece uma trajetória individual, mas também evidencia uma luta coletiva que atravessa gerações. A história de Chica Lera se soma à de milhares de mulheres que seguem defendendo os babaçuais, a preservação ambiental e a permanência de um modo de vida profundamente ligado ao território e à floresta.