Queda inédita expõe freio econômico no avanço da energia solar no Piauí
O Piauí gerou apenas 134,5 megawatts (MW) em 2025, contra 211,6 MW no ano anterior
Pela primeira vez desde 2017, o setor fotovoltaico do Piauí entrou em marcha à ré. Os dados da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR) mostram que 2025 marcou uma inflexão histórica em um dos segmentos mais dinâmicos da economia verde do estado. A potência adicionada encolheu 36,4% em relação a 2024, um recuo expressivo para um mercado que vinha crescendo de forma consistente ao longo da última década.
Em números absolutos, o Piauí gerou apenas 134,5 megawatts (MW) em 2025, contra 211,6 MW no ano anterior. O movimento de desaceleração também aparece no volume de novos empreendimentos: o número de usinas caiu 29,1%, despencando de 22.215 em 2024, o maior patamar já registrado, para 15.738 no ano passado. O dado chama ainda mais atenção por ficar abaixo de 2023, que fechou com 16.095 novas unidades.
A retração não é um fenômeno isolado. O Piauí acompanhou uma tendência nacional de desaceleração do setor solar. No Brasil, a potência adicionada caiu 29% em 2025, somando 10,6 gigawatts (GW), frente aos 15 GW do ano anterior. Os investimentos também sentiram o impacto: passaram de R$ 54,9 bilhões em 2024 para R$ 32,9 bilhões em 2025, uma redução de 40% em apenas doze meses.
A leitura econômica desse movimento revela um conjunto de fatores que ajudam a explicar o freio. Segundo a ABSOLAR, os grandes geradores sofreram prejuízos financeiros com cortes recorrentes de geração sem ressarcimento adequado. Já na geração distribuída, pequenos e médios sistemas instalados em telhados e terreno, o entrave veio das dificuldades de conexão, frequentemente justificadas pelas distribuidoras como incapacidade das redes e problemas de inversão de fluxo de potência. Na prática, consumidores dispostos a investir em energia limpa encontraram portas fechadas.
O cenário macroeconômico também pesou. O custo elevado do crédito, a volatilidade do dólar e o aumento das alíquotas de importação de equipamentos fotovoltaicos tornaram os projetos menos atraentes. Em um ambiente de incerteza, o investimento tende a recuar, e foi exatamente isso que aconteceu.
Ainda assim, a fotografia não é de colapso, mas de ajuste. Mesmo com menos investimentos, o setor solar gerou mais de 319,8 mil empregos verdes no Brasil em 2025. Desde 2012, a fonte já atraiu R$ 282,6 bilhões em investimentos e criou mais de 1,9 milhão de postos de trabalho. Hoje, a energia solar responde por 24,5% da potência instalada da matriz elétrica nacional, ocupando a segunda posição entre as fontes do País.
O CEO da ABSOLAR, Rodrigo Sauaia, avalia que a retração de 2025 reforça a necessidade de inovação e novos modelos de negócios. Para ele, a integração da geração solar com sistemas de armazenamento em baterias surge como uma oportunidade estratégica para garantir segurança energética, ampliar o suprimento e reduzir custos, especialmente em períodos de calor intenso e baixo nível dos reservatórios hidrelétricos.
O caso do Piauí, portanto, vai além de uma estatística negativa. Ele funciona como um termômetro da economia da transição energética: mostra que o crescimento não é automático e depende de regras claras, infraestrutura adequada e um ambiente econômico estável. A energia solar continua sendo uma das maiores apostas para o desenvolvimento sustentável do estado e do País, mas 2025 deixou claro que até o sol pode encontrar nuvens no caminho quando a economia perde fôlego.